domingo, 11 de abril de 2010

1977 - Caras & Bocas

Por Doug Carvalho, Tiago Marques e Fábio Coutinho

Foto: Marisa Alvarez Lima

"Caras & Bocas" foi o resultado em disco da turnê "Com a Boca no Mundo", um espetáculo dançante e que era uma espécie de revival da Gal Costa do início da década de 70, da época do "Legal" e "Fatal", que tinha se tornado mais suave com os trabalhos anteriores, principalmente "Cantar", de 1974. O disco tem o estilo alternativo dessa época, e foi a forma encontrada por Gal de resgatar seu velho público. Porém, após 5 anos de trabalhos mais "emepebistas" que roqueiros, e do amadurecimento do perfil do público, tanto o show quanto o disco não fizeram sucesso, apesar da boa execução radiofônica da música "Tigresa". O empresário Guilherme Araújo era contra a idéia da gravação desse disco, e alegava que mesmo os hippies mais radicais já tinham abandonado a velha forma, mas Gal Costa insistiu e realizou o trabalho. Depois se arrependeu e deu entrevistas dizendo que o considerava um dos seus discos de que ela não gostava, considerava o seu conceito equivocado. Em 1990, na época do show e disco "Plural", novamente questionada sobre o mesmo assunto, respondeu que tinha dado essa entrevista, mas que tinha reouvido o disco e já gostava muito dele novamente.
A realidade é que "Caras & Bocas"é um disco muito bom. Suingado, com ótimas interpretações de Gal, e um repertório de ótimo nível. Versões de clássicos de Billie Holiday escritas pelo poeta concretista Augusto de Campos, canções inéditas de Rita Lee, Jorge Ben, Péricles Cavalcanti, Caetano Veloso e o lançamento de uma nova compositora, que em seguida se tornaria uma das estrelas pop nacionais, Marina Lima, com "Meu doce amor", uma agressiva canção de amor interpretada extraordinariamente por Gal. Finalizando o disco, uma composição de Lupicínio Rodrigues, em gravação ao vivo do repertório do show, "Um favor", samba-canção de Lupicínio Rodrigues lançado pela cantora Nora Ney na I Bienal do Samba da Tv Record em 1968. Essa canção inclusive, na década de 90 tornou a ser popular entre a turma usuária de cannabis sativa que freqüentava as praias do Rio de Janeiro pelo verso que diz "quem tiver apito, apite". Com a aproximação dos policiais que iriam reprimir o uso de maconha em local público, os usuários presentes, munidos cada um com seu apito, avisando os demais da sua aproximação, seguiam o comando da música e... apitavam.

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