quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

2005 - Hoje

Os novos nomes de Gal

Nelson Gobbi - Jornal do Brasil - 02/09/2005
      

Cantora comemora 60 anos com 'Hoje', disco de inéditas em que revela safra de compositores

SÃO PAULO - A antes inexpugnável muralha dos 60 anos ganhou um sentido mais ameno quando ídolos da música brasileira como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque a transpuseram com invejável vitalidade. Agora chega a vez de Gal Costa, que completa seis décadas de vida no próximo dia 26. Dispensando o excesso de formalidades que poderiam trazer peso extra à data, a cantora baiana prefere comemorar com um disco de músicas inéditas, a maioria composta por nomes desconhecidos do grande público. A intérprete espera que a leveza do CD Hoje, cuja produção e arranjos levam a assinatura de César Camargo Mariano, transmita o seu espírito renovado, o retrato da artista quando jovem.
- Não me sinto com 60 anos. Minha cabeça e meu espírito não têm essa idade. Não sou só eu; é só olhar para o Caetano, o Chico, o César Camargo, todos têm uma vitalidade impressionante. Acho que os artistas têm essa característica atemporal. Jamais me imaginei com 60 anos, e é claro que não é fácil chegar lá. Mas lançar este disco agora é um presente maravilhoso, porque reflete um grande frescor, tanto meu como do César - afirma Gal.

O álbum reuniu novamente a cantora baiana e o pianista, produtor e arranjador, que haviam trabalhado juntos no disco Baby Gal (1983). César também ressalta a vitalidade da cantora.

- A Gal parece uma menina de 19 anos, é uma folha verde que impregnou todo o álbum com sua jovialidade. Eu me preocupei em não descaracterizá-la, e tive em mente que ela é uma das raras cantoras brasileiras que podem correr certos riscos. Por isso quis trazer para o disco uma enxurrada de compositores novos. Assim como Elis fazia no passado, a Gal é perfeita para revelar talentos ainda desconhecidos - atesta o músico, ex-marido de Elis Regina e pai dos cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

O CD Hoje é fruto de outro projeto de César e Gal. Após um encontro em Nova York, os dois decidiram produzir um disco dedicado a Chet Backer, trompetista americano que influenciou diretamente a bossa nova e, por conseguinte, toda a geração posterior de artistas brasileiros. César levou o projeto a João Marcelo Bôscoli, presidente da gravadora Trama, que decidiu produzir o disco-tributo e, de quebra, um álbum de inéditas da cantora.

- A idéia inicial era fazer os dois discos juntos, mas percebemos que seria muito desgastante produzi-los simultaneamente. Então optamos por fazer o CD do Chet Baker daqui a algum tempo, depois de lançar e fazer os shows do Hoje. Acho que deverá ser relativamente mais fácil gravar o próximo CD, porque eu e o César conhecemos bem a obra do Chet. Será mais o tempo de definir o repertório e entrar no estúdio para gravar - prevê Gal Costa.

Depois de assinar o contrato para os dois discos com a nova gravadora, a cantora começou a selecionar o repertório, repleto de jovens compositores como o pernambucano Junio Barreto, os paulistas Hilton Raw e Nuno Ramos, os baianos Moisés Santana, Péri e Tito Bahiense e o congolês Lokua Kanza, entre outros. Para encontrar os novos autores, a cantora contou com a ajuda do letrista e produtor Carlos Rennó e do pianista Otávio de Moraes.

- Sempre lancei gente nova e há muito tempo queria fazer um disco de inéditas. Após um dos meus shows, o Rennó me mostrou três músicas dele com o Lokua, que acabaram entrando no CD. Então eu lhe pedi que me ajudasse a garimpar novos nomes para o álbum. Ele e o Otávio selecionaram alguns trabalhos, que eu e César avaliamos em função do equilíbrio geral do disco. É gratificante poder mostrar a obra de gente talentosa que ainda não tem espaço junto ao grande público - afirma Gal.

'A internet é o caminho'

Gal Costa aproveita o fato de estar lançando novos autores para desfazer um antigo mal-entendido:
- Há poucos anos, uma afirmação minha teve interpretação equivocada por parte da mídia. Jamais disse que não havia mais bons compositores novos, seria burrice afirmar isso. Acho apenas que, na época em que a nossa geração surgiu, era mais fácil mostrar um trabalho, os meios de comunicação iam atrás dos artistas jovens, havia os festivais. Por isso este CD é ousado. Não me lembro, na história recente da MPB, de alguém gravando tantos compositores desconhecidos.

A cantora também foi uma das primeiras estrelas da MPB a deixar uma major e apostar no mercado independente, em 2002. Hoje, Gal não vê tanta diferença entre pertencer a uma multinacional ou a um selo pequeno.

- Acho apenas que as grandes gravadoras estão perdidas, sem saber que caminho percorrer. Os selos menores estão interessados em investir no novo, com um tesão de trabalhar que as grandes tinham no passado. A tendência do mercado fonográfico é a internet. Os fãs vão continuar comprando o disco, mesmo que não gostem de todas as faixas. Mas uma pessoa que goste de duas músicas minhas pode comprá-las pela rede e montar um disco com outras faixas da Marina Lima, do Caetano ou do Gil, por exemplo. O avanço da tecnologia vai apontar esse caminho - avalia a intérprete.

Como de costume, Gal escolheu uma das faixas para dar título ao álbum. A opção por Hoje, composta por Moreno Veloso, se deu pela sintonia que a cantora pretendia mostrar no novo trabalho:

- Eu e o César tivemos a mesma idéia. A música do Moreno era a mais adequada para batizar o disco por ter um espírito atual, contemporâneo, que retratou tão bem nosso reencontro.

Além de compositores em ascensão como Moreno, o disco também contou com a participação de dois ícones da música brasileira: Caetano Veloso, pai de Moreno, e Chico Buarque.

- Não poderia deixar de gravar esses presentes que Caetano e Chico me deram, até porque as músicas estão completamente integradas à proposta do álbum. Eu pedi uma música ao Caetano três meses antes de começar a gravar o CD. Ele me mandou Luto por e-mail e depois veio até São Paulo, para acompanhar a gravação dela no estúdio. Já Embebedado foi diferente; era uma melodia que o Chico tinha pronta para uma trilha sonora de um filme que acabou não sendo produzido. Então ele entregou para o José Miguel Wisnik colocar a letra. Eu queria cantá-la no meu show anterior, mas acabou não ficando pronta a tempo. Felizmente ele conseguiu terminá-la para que pudesse entrar no disco e o resultado foi surpreendente, parece até que os dois a fizeram juntos.

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