terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

1969 - Gal (álbum)


Caetano Veloso - O Pasquim
19/02/1970

Gal, seu disco é bacana. Seu disco é muito bacana mesmo. Cada ano sai melhor. Cada vez que eu leio um comentário sobre cinema em revista brasileira eu gosto mais do seu disco. Cada música nova que eu faço eu gosto mais do seu disco. Cada vez que eu sinto a barra. E a barra não está leve. Cada vez que eu vejo televisão colorida, cada papo sinistro que eu alimento, cada supergroup que aparece. Seu disco é bacana. Você deve ter brigado muito por ele. Com você mesma, com alguém, com alguma coisa. Se não brigou pra fazê-lo, ainda vai brigar por tê-lo feito. Seu disco é muito mais bacana do que o outro que você fez antes. Eu falo que você deve, de alguma forma, ter brigado pra fazer o disco como você fez, porque eu acho que ele é seu demais. E não é fácil a pessoa chegar inteira até o fim de um disco. Você chegou aqui, no disco, e você está maravilhosa. O show que você está fazendo com Macao deve ser terrível. Mandem notícias logo. Eu estou legal. Gil fez uma música linda pra você. Venha ouvir. Eu estou apaixonado por Pulsars e Quasars. É um sub-blue, uma supercanção de amor gravada num disco voador de tampa de panela, um disco voador daqueles que só existem na revista O Cruzeiro. Uma estrela cabeluda desbrilha no vídeo do barraco, qualquer coisa assim. Você está mesmo uma figura dápesa. E Macao. E Mariah? Ah, põe aquela estrela cabeluda num vídeo do Pinga, atrás da Rua Rio de São Pedro. A Rua Rio de São Pedro é fogo. Você pode dizer que eu sou saudosista. Eu sou mesmo. Mas eu estou é tentando falar de Pulsars e Quasars e Capinam, o autor da letra, é mais saudosista ainda do que eu. Agora, a cultura e a civilização, elas que se danem. Ou não. Meu nome é Gal, nasci em Santo Amaro da Purificação, Bahia, tenho vinte e sete anos, admiro Macalé, Erasmo, Mariah, Orlando Silva, Augusto de Campos, uma porrada de gente. Mas tem certas ostras e certos teiús de brejo que nem morta! Outro dia eu fiz uma carta pra Bob dizendo isso mesmo. Agora eu estou pensando em mandar esta carta através d'o Pasquim em vez de mandar direto pra você. Porque estou falando de seu disco e, como o pessoal que compra o Pasquim quer mesmo é ficar por dentro (quer mesmo?), isso pode ser útil. Eu, no momento, só teria uma coisa a aconselhar a quem quer ficar por dentro - a audição do disco de Gal Costa.

É isso mesmo. Que se danem. Anyway. Ferro na boneca. Eu quero a geral, com Errol Flinn da Conceição agitando a bandeira do Esporte Clube Bahia. Quero o identifi-si, o identudo-gui, o identido-ni, o identado-ca e mais uma porção dos identifisignificados novos seres que virão do fundo do céu, do alto do chão. Quero os Pulsars, os Quasars, os santamarenses geniais como Dinailton. Quero escrever alguma coisa que tenha o mesmo feeling do seu disco, Gal, mas não consigo. Seu disco é mesmo muito bacana.

in Alegria, Alegria Rio de Janeiro: Editora Pedra Q Ronca, 1977

O texto se refere ao LP Gal, Philips, 1969.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Caetano do exílio.