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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

1967 - Disco: Domingo

1988 - Caetano de ouvir cantar
Por Roberto Benevides - Songbook Caetano Veloso - Editora Lumiar
Trechos retirados do site oficial de Caetano Veloso

* Em destaque na cor verde o disco "Domingo" *

- A Maria Laís, que era professora de dança me disse: "Caetano, eu conheci uma menina que canta lindo e estou louca que você a ouça cantar. Ela é vizinha de uma aluna minha e e eu vou pedir pra minha aluna marcar o encontro. Elas são jovens, as mães não deixam sair de noite, mas quero ver se marco um encontro." Um dia, ela marcou no teatro. Fui lá e encontrei a tal aluna. Era a Dedé. O alvo da Laís era que eu conhecesse a Gal, Dedé era apenas a intermediária. Mas eu nem me interessei muito pelo encontro porque adorei a Dedé e fiquei pensando assim: "Puxa, essa menina devia ser minha namorada". Pensei mesmo. Olhei pra ela e achei isso. Imediatamente. Gostei dela, achei a maior graça, toda animada, direta, linda. Era linda, tinha dezesseis anos.

E o tal encontro com Gal, aliás, Maria da Graça, a Gracinha?

- Ela veio com Dedé, toda tímida, roendo as unhas, encanada, esquisita. Aí Dedé mandou que ela pegasse o violão e cantasse. E ela tocou e cantou ‘Vagamente’. "Só me lembro muito vagamente...", de Menescal e Bóscoli. Ainda não existia o disco da Wanda. E foi engraçado porque a gente botou o apelido dela Gracinha Vagamente. Depois, saiu o LP da Wanda que se chama Wanda Vagamente. Mas a Gal cantou, e quando acabou, foi um choque. Aquela voz já era essa voz, cantando lindo. Eu disse: "Você é a maior cantora do Brasil". Ela: "O quê?" E eu: "Você é a maior cantora do Brasil, a maior de todas já, não tem dúvida, você é o máximo".

O mito Gal Costa nasceria mais tarde.

- Gal é o nome dela. Tem gente que diz que foi inventado por Guilherme Araújo. Não foi não, é mentira. Toda mulher baiana que se chama Maria da Graça ou das Graças, no plural ou no singular tem automaticamante o apelido de Gal. Gal é o nome dela, sempre foi o nome dela. A idéia de botar Gal Costa, de botar um dos sobrenomes como nome artístico, é que foi do Guilherme. Ele achava que Maria da Graça era nome de fadista, não condizia com uma coisa moderna. Nós achávamos Gal lindo, achávamos que poderia ser só Gal. Mas Guilherme odiava e odeia até hoje nome sem sobrenome, acha cafona, que não é chique. Foi ele que botou Moraes Moreira, Jards Macalé e Gal Costa.

Bethânia, Gal, Gil e Caetano - estavam prontos os Doces Bárbaros que, muitos anos depois, cheios de felicidade e amor no coração, entrariam nas cidades, rasgando a manhã, avançando através dos grossos portões. Ali em Salvador, em 1964, ano em que a ditadura se instala no país, o quarteto se junta com Tom Zé e faz o show ‘Nós, por exemplo'. Era a arrancada para o profissionalismo. Gil já pensava em mudar para São Paulo. Caetano foi ao Rio para acompanhar a mana Bethânia, convidada para substituir Nara Leão, estrela e musa da Bossa Nova, no show ‘Opinião’. Voltou a Salvador decidido:

- Olha, Gil, eu pretendo fazer outra coisa. Vou ficar por perto, quero acompanhar vocês, mas Bethânia já está lançada. Gal necessariamente será uma cantora e você é que é o homem da música mesmo. Eu vou gradativamente me afastando. Não quero fazer música, não me sinto músico.

Mais tarde, logo depois do Tropicalismo, Caetano teria uma recaída e, de novo, quis deixar a música para fazer cinema e bolar projetos para Bethânia, Gal e Gil:

- Eu queria fazer outra coisa pra não ficar entrar no trabalho direto com música e não atrapalhar os músicos de verdade. Mas o Gil, nas duas oportunadades que lhe falei disso, me dissuadiu desesperadamente. Reagiu nas duas ocasiões como se fosse uma coisa inaceitável. E me disse claramente que, se eu não fizesse música, ele deixava de fazer. Então, eu pensava: para mim, Gil é a própria música. Então, era a música me dizendo que eu tinha que fazer alguma coisa.

E fez. Afinal, quando levou aquele primeiro papo, na volta do Rio para Salvador, Caetano já era um compositor e, dentro de pouco tempo, lançaria "Domingo", um disco lindo e delicado, dividido com a ainda Maria da Graça. Mas não o encantam os ecos joãogilbertianos em "Domingo":

- "Domingo" é sub-Bossa Nova. A única coisa que não é sub ali é a voz da Gal. É bonito, tem alguma graça, mas desde aquela época eu achava isso mesmo.

1967 - Álbum: Domingo

Álbuns incluídos na Caixa "Gal Total" - Comentários curtos 
Fonte: Jornal 'O Globo' - Por Antônio Carlos Miguel


Domingo (1967): Em seu belo LP de estreia, a ainda neobossanovista Gal dividiu os créditos com Caetano Veloso, autor de nove das 12 faixas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

1967 - Domingo (álbum)

Gal Costa e Caetano Veloso - Domingo
Por Douglas Carvalho, Tiago Marques e Fábio Coutinho

"Domingo" foi gravado em 1967, a convite de João Araújo (pai de Cazuza), então diretor da Philips. Foi produzido por Dori Caymmi e, segundo Caetano Veloso, foi gravado pela manhã, horário reservado aos iniciantes, o que, segundo ele em seu livro "Verdade Tropical" foi o responsável pelo seu mal desempenho como cantor. Para Gal, também acostumada a acordar tarde, o horário não foi dos mais aprazíveis, ainda mais após o lançamento do disco, quando os dois tiveram que continuar a rotina de madrugar para divulgação do disco nas rádios.
O disco foi muito bem recebido pelo meio musical da época. Com uma sonoridade de Bossa Nova tardia, "Domingo" mostra Gal Costa com exatamente a mesma voz que encatara Caetano, Gil e, principalmente, João Gilberto 3 anos antes, na Bahia. Não foi um grande sucesso comercial, mas deu visibilidade tanto a Caetano como cantor (então já relativamente conhecido como compositor e irmão de Maria Bethânia), quanto principalmente a Gal Costa, que começou a se tornar conhecida. "Coração vagabundo" foi um grande sucesso e "Minha senhora" havia sido cantada por Gal no Festival Internacional da Canção, em 1966.

domingo, 17 de janeiro de 2010

1967 - Domingo

Imagens: Domingo (Gal Costa e Caetano Veloso)

Em 1967, para lançar "Domingo" (disco de estréia de Gal e Caetano) ela mantinha a postura bossanovista: banco, contenção e violão

Release

Transcrição do Release do álbum 'Domingo' de 1967
Por Caetano Veloso

I

Gal participa dessa qualidade misteriosa que habita os raros grandes cantores de samba: a capacidade de inovar, de violentar o gosto contemporâneo, lançando o samba para o futuro, com a espontaneidade de quem relembra velhas musiquinhas. Por isto eu considero necessária a sua presença nesse disco em que se registra uma fase do meu trabalho em música popular, algumas das canções que eu fiz até agora. Por isso, e também porque desde a Bahia que nós cantamos juntos, desde lá que ela faz com que meus sambas existam de verdade. Não há defasagem de tempo entre a composição e o canto: cada interpretação sua tem a mesma idade da canção. Todas as minhas músicas que aparecem aqui foram feitas jnto dela e um pouco por ela também. Ouso considerá-la como parte integrante do meu processo de criação: este é um disco de "Gal interpretando Caetano" mesmo nas faixas em que ela canta músicas de outros autores ou quando sou eu mesmo quem canta as minhas. Gal cantando o que quer que ela goste, isso já é minha música, e quando eu canto ela está presente. O seu canto (como o de Gil ou o de Bethânia) tem sido sempre meu parceiro.

II

Eu gosto muito de cantar. Mas jamais consegui gostar muito de cantar as minhas composições. Um velho baião, uma canção antiga, o último samba de um amigo, isso é bom de cantar: u'a música que eu mesmo tenha inventado me parece informe pela proximidade e eu desconfio de tudo que escrevi. Neste disco estou enfrentando uma experiência nova: ouço essas coisas que fiz transformadas em música por Dori, Menescal e Francis e procuro amá-las despreocupadamente, tento aceitá-las como prontas (não há mais como compô-las): cantar as músicas que eles me devolveram, não aquilo que eu lhes dei.

III

Acho que cheguei a gostar de cantar essas músicas porque minha inspiração está tendendo para caminhos muito diferentes dos que segui até aqui. Algumas canções deste disco são recentes ("Um dia", por exemplo), mas eu já posso vê-las todas de uma distância que permite simplesmente gostar ou não gostar, como de qualquer canção. A minha inspiração não quer mais viver apenas da nostalgia de tempos e lugares, ao contrário, quer incorporar essa saudade num projeto de futuro. Aqui está - acredito que gravei esse disco na hora certa: minha inquietude de agora me põe mais à vontade diante do que já fiz e não tenho vergonha de nenhuma palavra, de nenhuma nota. Quero apenas poder dizer tranqüilamente que o risco de beleza que este disco possa correr se deve a Gal, Dori, Francis, Edu Lobo, Menescal, Sidney Miller, Gil, Torquato, Célio, e também, mais longe, a Duda, a seu Zezinho Veloso, a Hercília, a Chico Mota, às meninas de Dona Morena, a Dó, a Nossa Senhora da Purificação e a Lambreta.

Fotos de Gal Costa

Gal Costa (1965 - 1967)

Não consigo detalhadar as fotos abaixo, mas estão entre 1965 à 1967, início da brilhante carreira de Gal. Anexei em várias épocas referente a este período.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

1967 - Domingo

16/05/1991 - Caetano Veloso sobre o álbum "Domingo"
Fonte: Jornal do Brasil - Por Marcia Cezimbra

"Foi o Dori Caymmi quem produziu. Tem arranjos lindos. Ele toca um violão lindo. A gente botava a voz de manhã, veja só. Tinha outros artistas mais famosos que ocupavam os estúdios à noite. Gosto muito de "Coração Vagabundo" e de Gal cantando "Candeias" (Edu Lobo). Foi uma documentação do que eu já tinha feito e que não correspondia ao que eu fazia na época. Já estava com o germe do tropicalismo na cabeça. O João Araújo, que era o diretor da gravadora na época, foi um amor. Aceitou fazer essa experiência. Não dava para fazer um LP de cada um, aí ele juntou eu e a Gal num só. Adoro quando começo a cantar "Um Dia". A voz estava linda."

1967 - Domingo

Domingo
Por Caetano Veloso - Livro: Verdade Tropical (1997)

Eu próprio - que a essa altura não via para mim outra vida que não fosse urna vida de artista - vira surgir a oportunidade de gravar um LP. Edu, que tinha me recebido com carinho desde o dia em que cheguei de Salvador num ônibus, falava com interesse sobre minhas canções. Dori Caymmi, que eu conhecera na Bahia num passeio seu pela terra do pai Dorival, e Francis Hime, que me fora apresentado por Edu e Dori, também demonstravam entusiasmo pelo que eu parecia prometer. Eram todos jovens da minha idade e punham a curiosidade e o desejo de enriquecer o ambiente musical brasileiro à frente das ambições egóticas. Eram naturalmente generosos e excitavam-se corn a relativa novidade que esse grupo de baianos apresentava. Falava-se de nós. A afinação e a beleza de emissão de Gau (era assim que escrevíamos o apelido só usado pelos muito íntimos, até que Guilherme Araújo mudou a grafia para Gal, pois a maioria das pessoas ainda a chamava de Gracinha) eram tão cultuadas quanto a sua timidez. Suponho que foi o próprio Dori - que afinal produziu o disco - quem convenceu João Araújo, então diretor artístico da Philips (atual PolyGram) e hoje chefão da Som Livre (o selo vinculado à tv Globo), a fazer um LP reunindo Gal e eu. Nós gravávamos de manhã, horário reservado aos iniciantes e especialmente inapropriado para mim que sempre dormi tarde e demoro a me sentir inteiramente acordado. Mas, embora o sentimento dominante fosse o de frustração permanente, alguma coisa do disco me agradava desde a feitura. Mais que tudo os arranjos de Dori e seu jeito de tocar violão. A voz de Gal, naturalmente em quase tudo. E até minha própria voz em "Um dia" e, com reservas, em "Coração vagabundo". Enquanto eu e Gal gravávamos esse disco, que veio a se chamar Domingo, Rogério e eu projetávamos um repertório para Gal que superasse tanto a oposição MPB/Jovem Guarda quanto aquela outra oposição, mais profunda, que se dava entre bossa nova e samba tradicional, ou ainda entre música sofisticada moderna (fosse bossa nova, samba-jazz, canção neo-regional ou de protesto) e música comercial vulgar de qualquer extração (versões de tangos argentinos, boleros de prostíbulos, sambas-canções sentimentais etc.).

Guilherme Araújo, que se apaixonara pela força expressiva de Bethânia desde a primeira noite no Teatro Opinião, quis passar da condição de mero produtor de espetáculos à de verdadeiro empresário, e viu no grupo de amigos de Bethânia um possível elenco de contratados à altura de suas pretensões. Guilherme era um personagem fascinante. Prognata, de braços finos e ombros estreitos, ele, que com sua feiúra combinada a um ar imodesto tinha tudo para ser repulsivo, terminava por cativar quem quer que transpusesse a barreira do primeiro impacto e realmente dele se aproximasse. Havia uma espécie de nobreza no seu jeito franco de emitir opiniões originais sobre o mundo dos espetáculos. Ele repetia sem cessar um elogio a Bethânia que era uma síntese do seu critério: "Internacional, meu querido. Ela é a mais internacional de todas as artistas brasileiras". Para ele, nós, os outros baianos, éramos a confirmação do que ele vira em Bethânia. Éramos "chiques" e "modernos" e poderíamos ser "internacionais". Mas, embora ele tenha vindo a trabalhar de fato com todo o grupo e tenha permanecido ao lado de Gil, de Gal e meu por muitos anos depois que Bethânia se desligou dele, sempre me pareceu evidente que nenhum de nós jamais chegou a impressioná-lo como Bethânia o fez.

Ele abriu um escritório em Copacabana para dali dirigir os trabalhos e começou a fazer planos para seus novos contratados. Convidou Dedé para ser sua secretária. Ela, que, depois de uns meses num banco e outros num jornal, estava precisando de emprego, aceitou. Guilherme estava seguro quanto a Bethânia e Gil, cujas vidas profissionais tinham deslanchado. Mas não via nenhuma possibilidade de eu subir num palco para cantar e viver disso. Eu respondia, com uma segurança que o fazia rir incrédulo, que eu tinha certeza de ter talento para palco ou o que fosse, mas o fato é que o que ele considerava a única saída possível para mim era o mesmo que eu me imaginava fazendo: orientar os colegas, escrever canções e roteiros para seus shows, escrever releases para seus discos. Quanto a Gal, esta sim devia viver de cantar e ele via mesmo um futuro radioso para ela na profissão, bastava que nós todos víssemos que, com sua voz lindíssima e sua figura doce, ela poderia tornar-se uma espécie de nova rainha do iêiêiê. Não uma cantora comercial qualquer, mas uma nova forma de cantora comercial, uma super-Wanderléa com um repertório inteligente. Isso ele dizia, e sorria de nossa reação temerosa e desconfiada. Sobretudo Dedé, para quem Gal era uma quase-irmã, temia que Guilherme viesse a atirá-la na mais degradante vulgaridade. O curioso é que os planos de Guilherme para Gal eram, afinal de contas, muito semelhantes aos que Rogério e eu estávamos a ponto de lhe propor. Eu nada dizia a Guilherme sobre isso, pois tinha medo de enfraquecer minha resistência a suas idéias mais frívolas, ou de contaminar a nobreza de propósitos do projeto rogeriano com o que corria o risco de ser mero comercialismo empresarial.

Uma discussão paradigmática desses conflitos sutis foi a que envolveu o nome artístico de Gal. Seu nome de batismo é Maria da Graça Costa Penna Burgos. Desde Salvador, escrevíamos Maria da Graça nos cartazes e nos programas dos shows do Vila Velha, e a chamávamos de Gracinha no dia-a-dia e, carinhosamente, de Gau. Havia e há milhares de Gaus na Bahia: é o apelido carinhoso de todas as Marias das Graças ou da Graça de lá. Na verdade, no caso da nossa Gal, Maria da Graça era apenas o nome que constava na carteira de identidade e era usado como nome artístico; para todos os efeitos, seu nome era Gracinha: assim é que nos referíamos a ela em presença de estranhos, assim é que a apresentávamos a novos amigos. Na intimidade, no entanto, nós a chamávamos de Gau. Guilherme achava Maria da Graça inviável como nome de cantora. Ele concordava que era belo e nobre, mas sugeria uma antiga intérprete de fados portugueses, não poderia servir para uma cantora moderna, muito menos e aqui ele voltava a sorrir diabolicamente para uma nova rainha do iêiêiê. Ele gostava de Gau. Nós também. Em primeiro lugar porque era seu nome real (isso era fundamental para nós), e depois porque era bonito e fácil de aprender, além de ser marcante, uma vez que no Rio (e em São Paulo, pelo menos) esse não era um apelido comum como na Bahia. Mas havia dois problemas: Guilherme achava vulgar e "pobre" artista de nome único (para ele era indispensável um sobrenome se o nome não fosse composto, e mesmo os nomes compostos raramente eram aceitáveis: Maria Bethânia era, é claro, uma exceção genial); e Gau, escrito assim, com u, parecialhe pesado e pouco feminino. Como em quase todo o Brasil Gal e Gau têm pronúncia idêntica, achamos praticamente indiferente que a grafia fosse a escolhida por ele (que se referia a uma cantora francesa chamada Francis Gal como exemplo). Restava a questão do sobrenome. Gal Penna? Gal Burgos? Guilherme, não sem razão, preferiu Gal Costa. Este era mais eufônico do que os outros dois. Ele não ousava sair dos nomes verdadeiros por saber de nossa intransigência quanto a isso. Mas eu não gostei. Eu achava que já tinha concedido o bastante em aceitar o l, que ele aceitasse o nome único: Gal, simplesmente, era a melhor solução. Mas ele insistiu no sobrenome e eu disse que Gal Costa parecia nome inventado, parecia nome de produto, parecia nome de pasta de dentes e, finalmente, se Gau não era suficientemente feminino, Gal era abreviatura de general. Com a subida do general Costa e Silva ao poder, em substituição ao marechal Castelo Branco, Gal Costa passava a ser homônima do segundo presidente do período militar. Mas a própria Gal, de quem afinal devia ser a última palavra, aceitou o nome e ele funcionou muito bem com a imagem pop que se criou para ela.

Até hoje me irrita ouvir alguém comentar que Gal Gosta é um nome criado e que o verdadeiro nome dela é Gracinha ou Maria da Graça. Gal ou Gau sempre foi mais seu nome do que Maria da Graça, e só quem não a conhecia de perto é que pensa que seu nome íntimo era Gracinha e, no entanto, esse nome Gal Costa teve sabor de coisa inventada para mim mais do que para qualquer outro. Hoje, que todos a chamam simplesmente de Gal, fico inteiramente em paz com essa história: é seu nome, seu nome verdadeiro, e é um nome baiano, profundamente autêntico e revelador da cultura particular do recôncavo da Bahia e da Cidade do Salvador, além de ser bonito sonoramente e o modo mais carinhoso de se a chamar. É, como queria Guilherme, internacional e pop, mas é pessoal e regional até a ponta da raiz. É um lance de poesia profunda, feito de acaso e equívocos, que serve como síntese do drama tropicalista. Mas na altura, eu, que hoje o amo mais que ninguém, fui quem mais reagiu contra esse nome. Lembro de comentar com Rogério a discussão e ouvir dele a declaração de que sempre estaria no extremo oposto de Guilherme, de quem se sabia fatal antípoda: "É impossível que o que ele planeja seja o mesmo que eu planejo, pois ele é o empresário e eu sou o desempresário". Contudo, e apesar de falar com alguma ira na voz, ele se esforçava para me fazer entender que ele pensava mais numa dialética necessária ao processo, ou, melhor ainda, numa complementaridade, do que numa competição que implicasse inimizade reles. O mais bonito de tudo foi que Roberto Carlos e Erasmo Carlos, atendendo a um pedido de fazer uma canção para o primeiro disco tropicalista que ela gravou, apresentaram "Meu nome é Gal", em que, sem nada saberem das exigências de Guilherme, insistem no apelido monossilábico e, num texto escrito para ser declamado por ela, frisam que "não precisa sobrenome, pois é o amor que faz o homem".

Gal tinha vindo da Bahia, como eu, na esteira de Bethânia e Gil, para tentar profissionalizar-se. Ela nunca tinha querido nada em sua vida a não ser cantar. Era-lhe inimaginável querer ser Outra coisa que não cantora. Gil formara-se em administração e exercia a profissão; Bethânia sonhara em ser atriz e chegara a escrever contos e fazer esculturas de madeira e cobre; eu já fora pintor, quisera ser professor e ainda queria ser cineasta; mas ela seria cantora ou nada mais. Desde criança - Dedé contava - Gal usava as panelas da cozinha para fazer o som de sua voz
voltar ampliado aos seus próprios ouvidos, e assim poder exercer melhor controle sobre a emissão, como se estivesse num estúdio de gravação. Todos os jovens músicos encantavam-se com sua voz, e a colaboração com eles na feitura de Domingo estava sendo muito boa. Edu compôs uma canção "no estilo do grupo baiano" (isso era um grande elogio, pois o que ele compôs era enormemente mais requintado harmonicamente do que tudo o que fazíamos), uma canção chamada "Candeias", sobre lembranças de suas férias pernambucanas, para ela gravar no nosso disco, e até hoje considero essa a melhor interpretação de Gal nesse primeiro trabalho. Para mim, tudo se fazia possível no estúdio - minha timidez não era grande demais -, porque eu já estava mergulhado nos novos projetos que me distanciavam do material que gravávamos. Conversando com Rogério e Agrippino, discutindo com Guilherme, ouvindo os conselhos de Bethânia sobre Roberto Carlos, ouvindo o próprio Roberto Carlos, vendo Terra em transe e Chacrinha, compondo "Paisagem útil" e "Alegria, alegria", eu cantava as canções de Domingo com considerável desassombro. Ainda assim, quando ouço hoje esse disco me espanto com o atraso com que ataco as notas e me irrito com a lentidão mental que isso revela. Quando estou de bom humor, atribuo isso ao horário matinal das sessões de gravação.

Domingo já devia estar pronto quando Gil, que tinha deixado a Gessy Lever e se mudara com mulher e filhas para o Rio, recebeu um convite de não sei quem em Pernambuco para fazer uma temporada de apresentações no Recife. Guilherme foi com ele. Quando os dois voltaram, Gil estava transformado. Talvez os muitos dias longe da família - e ele era então um estreante naquela solidão de viagem que excita a mente - o tivessem deixado mais sensível e receptivo aos estímulos do caráter cultural pernambucano, às insinuações da singularidade da nossa situação de brasileiros sob um governo militar que odiávamos, às contradições dos nossos projetos profissionais. O fato é que ele chegou no Rio querendo mudar tudo, repensar tudo e, sem descanso, exigia de nós uma adesão irrecusável a um programa de ação que esboçava com ansiedade e impaciência. Ele falava da violência da miséria e da força da inventividade artística: era a dupla lição de Pernambuco, da qual ele queria extrair um roteiro de conduta para nós. A visão dos miseráveis do Nordeste, a mordaça da ditadura num estado onde a consciência política tinha chegado a um impressionante amadurecimento (o governo de Miguel Arraes tinha sido, até sua prisão e deportação em 64, o mais significativo exemplo de escuta da voz popular) e onde as experiências de arte engajada tinham ido mais longe, e as audições de mestres cirandeiros nas praias, mas sobretudo da Banda de Pífanos de Caruaru (um grupo musical de flautistas toscos do interior de Pernambuco, cuja força expressiva e funda marca regional aliavam-se a uma inventividade que não temia se autoproclamar moderna - a peça que mais nos impressionou chamava-se justamente "Pipoca moderna") deixaram-no exigente para com a eficácia de nosso trabalho. Ele dizia que nós não podíamos seguir na defensiva, nem ignorar o caráter de indústria do negócio em que nos tínhamos metido. Não podíamos ignorar suas características da cultura de massas cujo mecanismo só poderíamos entender se o penetrássemos. Dizia-se apaixonado por uma gravação dos Beatles chamada "Strawberry fields forever", que, a seu ver, sugeria o que devíamos estar fazendo e parecia-se com a "Pipoca moderna" da Banda de Pífanos. Por fim, ele queria que fizéssemos reuniões com todos os nossos bem-intencionados colegas para engajá-los num movimento que desencadearia as verdadeiras forças revolucionárias da música brasileira, para além dos slogans ideológicos das canções de protesto, dos encadeamentos elegantes de acordes alterados, e do nacionalismo estreito.

Nada disso era propriamente novo para mim, exceto que tudo viesse assim de uma vez e tão sistematizado. Não deixava, porém, de ser surpreendente que partisse de Gil. Na verdade, não só muito do que ele falava já estava nos meus projetos nunca realizados com Rogério para Gal, na minha "Paisagem útil" e nas conversas de Guilherme, como o próprio Gil já vinha produzindo, com José Carlos Capinan, uma série de canções proto-tropicalistas para o filme Brasil, ano 2000, de Walter Lima Jr., um projeto larga e fundamente influenciado por Terra em transe. O modo como Walter encomendou as canções, a própria idéia do filme, faziam com que o que Gil e Capinan escreviam tivesse características do futuro movimento. Mas agora Gil vinha com uma clareza e uma veemência que quase assustavam, pois, apesar de ter tido sempre mais interesse em política do que eu, Gil é, de ordinário, adaptável e mesmo passivo. Guilherme Araújo que tinha ido com ele para Recife certamente aproveitara a oportunidade de estarem os dois a sós para espicaçar a ambição artística de Gil. Sim, porque Guilherme deve ser visto não apenas como um empresário com senso de oportunidade mas (talvez sobretudo) como um jovem de temperamento criativo, cujo sonho de mudar a face do show business brasileiro via no grupo baiano sua possibilidade de realização. Ele foi, de fato, um co-idealizador do movimento. Suas habilidades propriamente empresariais foram sempre muito discutíveis (embora aí também ele mostrasse originalidade) e se tornaram bastante desastradas com o passar do tempo, mas seu desejo de deixar urna marca indelével na história do entretenimento no Brasil realizou-se plenamente. Gil parecia antes ter usado esse empurrão dele como um detonador e um pretexto para extravasar seus próprios desejos. De repente, Guilherme agia como quem cumpre uma missão. Sem um segundo de hesitação e já tendo me convencido a dar tanta atenção aos Beatles quanto a Roberto Carlos , ele procurou todos os nossos colegas mais próximos e com os quais mais nos identificávamos, e marcou reuniões para conversas. Sérgio Ricardo, que tinha feito a trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol e se tornara um dos mais militantes dos compositores saídos da bossa nova (Carlos Lyra tinha se mudado para o México), mostrouse o mais interessado e combinou-se que a primeira reunião seria em sua casa. Suponho que só houve duas dessas reuniões. Capinan, Torquato Neto, Sidney Miller, Edu, Chico Buarque e eu, além de Sérgio Ricardo e Gil, estávamos presentes a ambas. Talvez Francis Hime e Dori tenham ido a urna ou outra. Ou às duas. Não estou certo, O que lembro com clareza é que, se, por um lado, Chico, boêmio e desconfiado de programas, embriagava-se e ironizava o que mal ouvia, Sérgio Ricardo tomava algumas palavras de Gil pelo que este não quereria que elas fossem tomadas: por exemplo, "ser realmente popular" levava-o a sugerir que fizéssemos shows em portas de fábricas. Gil tinha enormes dificuldades de se fazer entender. Quando ele mencionava a música rural de Pernambuco, quase se ouvia alguém responder que Edu já trabalhava com isso satisfatoriamente; e quando ele falava nos Beatles, alguns olhos baixavam, outros arregalavam-se, todas as bocas silenciavam. Ele não ousava falar em Roberto Carlos. E, depois de urna pausa tensa, alguém se manifestava para tentar mostrar que entendera tratar-se de uma estratégia esperta e um tanto desonesta mas fadada ao fracasso , a qual consistiria em fazer uma música mais comercial para assim poder melhor veicular idéias revolucionárias. Enfim, Gil não chegou a desistir de se fazer entender, pois os outros é que desistiram de tentar segui-lo. Restava-nos seguir sozinhos. (…)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

1967 - Domingo

Saiba Mais
Por Douglas Carvalho, Tiago Marques e Fábio Coutinho
 
"Domingo" foi gravado em 1967, a convite de João Araújo (pai de Cazuza), então diretor da Philips. Foi produzido por Dori Caymmi e, segundo Caetano Veloso, foi gravado pela manhã, horário reservado aos iniciantes, o que, segundo ele em seu livro "Verdade Tropical" foi o responsável pelo seu mal desempenho como cantor. Para Gal, também acostumada a acordar tarde, o horário não foi dos mais aprazíveis, ainda mais após o lançamento do disco, quando os dois tiveram que continuar a rotina de madrugar para divulgação do disco nas rádios.
O disco foi muito bem recebido pelo meio musical da época. Com uma sonoridade de Bossa Nova tardia, "Domingo" mostra Gal Costa com exatamente a mesma voz que encatara Caetano, Gil e, principalmente, João Gilberto 3 anos antes, na Bahia. Não foi um grande sucesso comercial, mas deu visibilidade tanto a Caetano como cantor (então já relativamente conhecido como compositor e irmão de Maria Bethânia), quanto principalmente a Gal Costa, que começou a se tornar conhecida. "Coração vagabundo" foi um grande sucesso e "Minha senhora" havia sido cantada por Gal no Festival Internacional da Canção, em 1966.

1967 - Gal Costa e Caetano Veloso - Domingo




Foto: Site Oficial Gal Costa - Em 1967, para lançar "Domingo" (disco de estréia de Gal e Caetano) ela mantinha a postura bossanovista: banco, contenção e violão


Foto: Site Oficial Gal Costa - Gola rolê e cabelo à la garçonne: Gal surgia assim, com look meio existencialista, quando lançou seu primeiro disco, "Domingo" (1967)




Foto: Site Oficial - Caetano Veloso ao violão, Sidney Muller sentado atrás e Gal cantando com vestido pop-militar: os três artistas divulgavam o disco "Domingo" (1967)


 











 

 

 

 

 

 

1967 - Gal Costa e Caetano Veloso - Domingo

Gal Costa e Caetano Veloso - Domingo
Universal / 1967
(LP/1967), (CD/1989)

Lado A

1 Coração vagabundo (Caetano Veloso) - Gal e Caetano
2 Onde eu nasci passa um rio (Caetano Veloso) - Caetano
3 Avarandado (Caetano Veloso) - Gal
4 Um dia (Caetano Veloso) - Caetano
5 Domingo (Caetano Veloso) - Gal e Caetano
6 Nenhuma dor (Caetano Veloso) - Gal    
 
Lado B

1 Candeias (Edu Lobo) - Gal
2 Remelexo (Caetano Veloso) - Caetano
3 Minha senhora (Gilberto Gil - Torquato Neto) - Gal
4 Quem me dera (Caetano Veloso) - Caetano
5 Maria Joana (Sidney Miller) - Gal
6 Zabelê (Gilberto Gil - Torquato Neto) - Gal e Caetano

LETRAS:

Coração vagabundo
(Caetano Veloso)
com Caetano Veloso

Meu coração não se cansa de ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos sem dizer adeus
E fez dos olhos meus um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim.

Avarandado
(Caetano Veloso)

Cada Palmeira na estrada
Tem uma moça recostada
Uma é minha namorada
E essa estrada vai dar no mar
Cada palma enluarada
Tem que estar quieta, parada
Qualquer canção, quase nada
Vai fazer o dia nascer
Vai fazer o sol levantar
Namorando a madrugada
Eu e minha namorada
Vamos andando na estrada
Que vai dar no avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer.

Domingo
(Caetano Veloso)
com Caetano Veloso

Roda, toda gente roda
Ao redor desta tarde
Esta praça é formosa
E a rosa pousada no meio da roda
No meio da tarde de um imenso jardim
Rosa não espera por mim
Rosa menina pousada não espera por nada
Não espera por mim

Roda, toda gente roda
Ao redor desta praça
Esta tarde está morta
E a rosa coitada na praça e na porta
Na sala, na tarde do mesmo jardim
Que dia espera por mim
Nova, perdida, calada
Não há madrugada esperando por mim
Nova, perdida, calada
Não há madrugada esperando por mim.

Nenhuma dor
(Caetano Veloso)

Minha namorada tem segredos
Tem nos olhos mil brinquedos
De magoar o meu amor
Minha namorada muito amada
Não entende quase nada
Nunca vem de madrugada
Procurar por onde estou
É preciso, ó doce namorada
Seguirmos firmes na estrada
Que leva a nenhuma dor
Minha doce, triste namorada
Minha amada, idolatrada
Salve, salve o nosso amor.

Candeias
(Edu Lobo)

Ainda hoje vou-me embora pra Candeias
Ainda hoje meu amor eu vou voltar
Da terra nova nem saudades vou levando
Pelo contrário, pouca história pra contar

Quero ver a lua vindo por detrás da samambaia
Rede de palha se abrindo
Em cada palmo de praia
Quero ver a lua branca clareando como um dia
E nos seus olhos de espanto
Tudo quanto eu mais queria

Ainda hoje vou me embora pra Candeias
Ainda hoje meu amor eu vou voltar
Da terra nova nem saudades vou levando
Pelo contrário, pouca história pra contar

E nas sombras lá de longe, lá onde o céu principia
Quero ver mestre proeiro no remo e na valentia
Procissão de velas brancas no sentido da Bahia
Procissão de velas brancas no sentido da Bahia
Da Bahia.

Minha senhora
(Gilberto Gil – Torquato Neto)

Minha senhora, onde é que você mora?
Em que parte desse mundo?
Em que cidade escondida?
Dizei-me que sem demora lá também quero morar

Onde fica essa morada?
Em que reino, qual parada?
Dizei-me por qual estrada é que eu devo caminhar

Minha senhora, onde é que você mora?
Venho da beira da praia
Tantas prendas que eu lhe trago
Pulseira, sandália e saia
Sem saber como entregar

Quero chegar sem demora
Nessa cidade encantada
Dizei-me logo senhora
Que essa chegança me agrada
Dizei-me logo senhora
Que essa chegança me agrada
Dizei-me logo senhora
Que essa chegança me agrada.

Maria Joana
(Sidney Miller)

Não faz feitiço quem não tem um terreiro
Nem batucada quem não tem um pandeiro
Não vive bem quem nunca teve dinheiro
Nem tem casa pra morar
Não cai na roda quem tem perna bamba
Não é de nada quem não é de samba
Não tem valor quem vive de muamba
Pra não ter que trabalhar
Eu vou procurar um jeito de não padecer
Porque eu não vou deixar a vida sem viver

Mas acontece que a Maria Joana
Acha que é pobre, mas nasceu pra bacana
Mora comigo, mesmo assim não me engana
Ela pensa em me deixar
Já decidiu que vai vencer na vida
Saiu de casa toda colorida
Levou dinheiro pra comprar comida
Mas não sei se vai voltar
Eu vou perguntar: Joana, o que aconteceu?
Dinheiro não faz você mais rica do que eu.

Zabelê
(Gilberto Gil – Torquato Neto)
com Caetano Veloso

Minha sabiá, minha zabelê
Toda meia noite eu sonho com você
Se você duvida, eu vou sonhar pra você ver

Minha sabiá, vem me dizer, por favor
O quanto que eu devo amar
Pra nunca morrer de amor
Minha sabiá, vem me dizer, por favor
O quanto que eu devo amar
Pra nunca morrer de amor

Minha zabelê, vem correndo me dizer
Porquê sonho toda noite
E sonho só com você
Se você não me acredita, vem pra cá
Vou te mostrar
Que riso largo é o meu sono
Quando sonho com você

Mas anda logo
Vem que a noite já não tarda a chegar
Vem correndo pro meu sono escutar
Que eu sonho falando alto
Com você no meu sonhar

Minha sabiá, minha zabelê
Toda meia noite eu sonho com você
Se você duvida eu vou sonhar pra você ver.

FICHA TÉCNICA:

Produção: Dori Caymmi
Arranjos: Roberto Menescal, Francis Hime e Dori Caymmi


RELEASE:

I

Gal participa dessa qualidade misteriosa que habita os raros grandes cantores de samba: a capacidade de inovar, de violentar o gosto contemporâneo, lançando o samba para o futuro, com a espontaneidade de quem relembra velhas musiquinhas. Por isto eu considero necessária a sua presença nesse disco em que se registra uma fase do meu trabalho em música popular, algumas das canções que eu fiz até agora. Por isso, e também porque desde a Bahia que nós cantamos juntos, desde lá que ela faz com que meus sambas existam de verdade. Não há defasagem de tempo entre a composição e o canto: cada interpretação sua tem a mesma idade da canção. Todas as minhas músicas que aparecem aqui foram feitas jnto dela e um pouco por ela também. Ouso considerá-la como parte integrante do meu processo de criação: este é um disco de "Gal interpretando Caetano" mesmo nas faixas em que ela canta músicas de outros autores ou quando sou eu mesmo quem canta as minhas. Gal cantando o que quer que ela goste, isso já é minha música, e quando eu canto ela está presente. O seu canto (como o de Gil ou o de Bethânia) tem sido sempre meu parceiro.

II

Eu gosto muito de cantar. Mas jamais consegui gostar muito de cantar as minhas composições. Um velho baião, uma canção antiga, o último samba de um amigo, isso é bom de cantar: u'a música que eu mesmo tenha inventado me parece informe pela proximidade e eu desconfio de tudo que escrevi. Neste disco estou enfrentando uma experiência nova: ouço essas coisas que fiz transformadas em música por Dori, Menescal e Francis e procuro amá-las despreocupadamente, tento aceitá-las como prontas (não há mais como compô-las): cantar as músicas que eles me devolveram, não aquilo que eu lhes dei.

III

Acho que cheguei a gostar de cantar essas músicas porque minha inspiração está tendendo para caminhos muito diferentes dos que segui até aqui. Algumas canções deste disco são recentes ("Um dia", por exemplo), mas eu já posso vê-las todas de uma distância que permite simplesmente gostar ou não gostar, como de qualquer canção. A minha inspiração não quer mais viver apenas da nostalgia de tempos e lugares, ao contrário, quer incorporar essa saudade num projeto de futuro. Aqui está - acredito que gravei esse disco na hora certa: minha inquietude de agora me põe mais à vontade diante do que já fiz e não tenho vergonha de nenhuma palavra, de nenhuma nota. Quero apenas poder dizer tranqüilamente que o risco de beleza que este disco possa correr se deve a Gal, Dori, Francis, Edu Lobo, Menescal, Sidney Miller, Gil, Torquato, Célio, e também, mais longe, a Duda, a seu Zezinho Veloso, a Hercília, a Chico Mota, às meninas de Dona Morena, a Dó, a Nossa Senhora da Purificação e a Lambreta.

Caetano Veloso

Créditos: Discografia disponibilizada por Doug Carvalho