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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

2005 - Hoje

César Mariano fala sobre CD de Gal

Mauro Ferreira - Jornal \"O dia\" - 02/09/2005

"É evidente que a gente sempre treme nas bases quando trabalha com uma diva dessa, mas foi tudo muito confortável, muito gostoso...". Dado para o colunista por telefone, dos Estados Unidos, o depoimento é de César Camargo Mariano (na foto, com Gal Costa durante a gravação do novo CD da cantora) e ilustra o prazer com que o disco Hoje foi feito nos estúdios da gravadora Trama, em São Paulo). Um dos pontos salutares do álbum é o encontro profissional de Gal com Mariano, seu amigo de longa data, mas estreante na produção de discos da cantora.

O primeiro contato foi feito nos Estados Unidos. Gal participava de um tributo a Tom Jobim no Carnegie Hall. Mariano estava lá e, na coxia, convidou a cantora para gravar um disco com o repertório do trompetista americano Chet Baker, ídolo de Gal. O convite foi aceito na hora, mas o projeto em torno de Baker - previsto inicialmente para ser gravado simultaneamente com Hoje, mas adiado para 2006 ou 2007 - foi apenas o pontapé inicial de um reencontro que acabou gerando o contrato com a Trama e o disco com compositores desconhecidos do grande público.

"Não quis mexer no estilo dela", explica Mariano. "Pensei apenas em criar uma sonoridade fresca, gravada com músicos novos. Conversei muito com Gal, que ficou entusiasmada. Gal continua uma menina: frágil, delicada, doce... Pensei num som assim para ela, não podia ser jazz, bossa nova ou sambão... E ela adorou e se integrou demais com a gente no estúdio. Faz tempo que eu não a ouvia cantar com tanta emoção", testemunha Mariano.

"O encontro com Mariano realmente me trouxe frescor", confirma Gal. "Ela acompanhou até a parte técnica da feitura de um disco, que é meio sacal. Gal ficava até altas horas da madrugada no estúdio, perguntando, interessada, sobre tudo", relata Mariano. Que venha, então, o álbum com os sucessos de Chet Baker.

2005 - Hoje

Sexta-feira, Setembro 02, 2005

O tempo de Gal


Gal Costa completa 60 anos em 26 de setembro sem sentir o peso da idade. A leveza está confirmada em seu novo CD, Hoje, nas lojas na segunda-feira, 5. "Não me sinto com 60 anos e o disco é uma prova disso. Eu me sinto começando, estou sempre recomeçando", avalia a cantora (na foto, clicada por Fernanda Cardoso no estúdio da Trama).

De fato, Hoje significa uma lufada de ar fresco na trajetória de uma cantora que já foi legal, fatal e tropical. É o primeiro disco de Gal na gravadora independente Trama e traz repertório inédito formado basicamente por músicas de compositores que vivem à margem do mercado (Nuno Ramos, Clima, Tito Bahiense, Moisés Santana, Junio Barreto, Péri, Hilton Haw). Além do repertório renovado, Hoje marca o encontro da cantora com César Camargo Mariano, produtor do disco e mentor da sonoridade atual, gravada com músicos jovens recrutados entre os colaboradores fixos dos álbuns editados pela Trama.

"Por incrível que pareça, o disco acabou ficando radiofônico", surpreende-se Gal. A garimpagem do repertório foi feita com a ajuda de Carlos Rennó - parceiro do africano Lokua Kanza em três faixas - depois que uma triagem inicial, feita por Otávio de Moraes, desagradou a cantora. "Eram músicas até boas, mas que não faziam parte do meu universo musical", justifica Gal.

Das mãos de Rennó, Gal recebeu discos de nomes como Moisés Santana, Junio Barreto e Rômulo Fróes (cantor e compositor que grava sambas de Nuno Ramos). A partir da audição destes CDs, todos editados de forma independente, a cantora chegou ao repertório de Hoje. "São músicas antenadas com o meu estilo de interpretação", entende Gal.

O frescor do repertório inspirou o clima ameno da gravação do CD. "A gente fez um disco com emoção, com alto nível musical. Ficou um clima bacana. Só tem garotada na banda... Os encontros são sempre estimulantes, e meu encontro com César me renovou", ressalta Gal.

Entre os autores "novos" (a maioria já passa dos 40), há a presença de dois ilustres veteranos: Caetano Veloso e Chico Buarque. De Caetano, Gal pediu e recebeu a inédita Luto, canção tristonha em que o velho baiano desfia suas desilusões amorosas em mais uma letra de tom confessional (porém de versos bem mais refinados do que os do samba Tiranizar, recém-gravado por Leila Pinheiro). De Chico, a cantora ganhou enfim Embebedado, a parceria inaugural do compositor com José Miguel Wisnik (autor da letra) que havia sido prometida para o show Todas as Coisas e Eu. "Chico e Caetano estão no disco porque são dois compositores que fazem parte da minha história e que influenciaram todo este povo novo que está no CD", argumenta Gal.

A história da baiana quase sessentona continuará em fim de outubro (ou início de novembro) com a estréia da turnê de lançamento de Hoje, que vai ser registrada pela Trama para virar um bem-vindo DVD. Aos 60 anos, Gal Costa está na área com um disco de 20.

2005 - Hoje

Gal grava o 'som de hoje' sem descaracterizar seu canto cristalino


Resenha de disco
Título: Hoje
Artista: Gal Costa
Gravadora: Trama
Cotação: * * * *


O tempo de Gal Costa voltou a ser hoje. Depois de quatro CDs sucessivos com regravações de sucessos (alguns irretocáveis como o recente Todas as Coisas e Eu), a cantora ensaia nova guinada em discografia que já soma 40 anos - seu primeiro compacto é de 1965. Hoje marca a estréia de Gal na gravadora Trama e é um disco fresco, atual, como sugere seu título. Fruto do encontro profissional da artista com o produtor César Camargo Mariano, o CD aposta em compositores que militam à margem do mercado. Mas a delicada sonoridade urdida por Mariano - com alguns elementos afros, sobretudo por conta dos vocais destacados de Silvera em faixas como Santana, do pernambucano Junio Barreto - passa longe da vanguarda.

Como sinaliza a pose da capa, Hoje é um disco calmo, quase contemplativo, ora mais melancólico (como em Pra que Cantar?, samba de Nuno Ramos, e como em Luto, a inédita de Caetano Veloso), ora até bossa-novista (como em Os Dois, em que o baiano Moisés Santana cita na letra alguns clássicos da velha bossa). Até Moreno Veloso, artista identificado com a linguagem experimental, surpreende e comparece com uma canção formal (a faixa-título) e um samba delicioso (Um Passo à Frente, com Quito Ribeiro). Aliás, nos sambas, como Jurei (de Nuno Ramos e Clima), o suingue dos arranjos evoca discos de Elis Regina nos anos 70, não por acaso produzidos por Mariano.

Entre três parcerias do africano Lokua Kanza com Carlos Rennó (Te Adorar, Mar e Sol e Sexo e Luz), há uma melodia quebrada de Chico Buarque, letrada por seu novo parceiro José Miguel Wisnik. Embebedado, a música, é até formalmente mais ousada do que os temas dos autores supostamente "novos". Nesse sentido, o mais experimental é o baiano Tito Bahiense, autor de Logus Pé, a faixa mais "moderninha" de um disco que abriga o suingue afro-caribenho na deliciosa Voyeur, do também baiano Péri. Enfim, Hoje é um dos melhores e mais arejados discos de Gal Costa, mas não descaracteriza o canto da eterna diva tropicalista.
Gal Costa ilumina novos autores no CD "Hoje"
Adriana Del Ré - Estado de São Paulo - 02/09/2005
      
A cantora retoma o rumo de sua carreira, com novo disco produzido por César Camargo Mariano

São Paulo - Hoje, faixa-título de seu novo CD (o primeiro dela lançado pela gravadora Trama), diz: "Eu posso esquecer/Para ser mais feliz/Mas não vou mudar nada/De tudo que eu fiz". No dia 26, Gal Costa entra para a turma dos 60 anos, da qual já fazem parte Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda.

A cantora baiana que ganhou o título de cidadã paulistana, resolveu se instalar em São Paulo, onde gravou o álbum Hoje, por dois meses, com o produtor Cesar Camargo Mariano e uma trupe de jovens músicos, na faixa dos 20, escolhidos pelo próprio Cesar, com quem ela já tem estrada. Ele fez arranjos para algumas canções do disco Baby Gal, na década de 80, entre outros.

Hoje reúne músicas de autores desconhecidos. Com ajuda de Carlos Rennó, Gal trouxe à luz compositores que contabilizam muito tempo de estrada e já haviam gravado quase todas as canções pinçadas por ela em seus respectivos CDs independentes, como é o caso de Péri, Moisés Santana, Junio Barreto, entre outros. Há inéditas compostas especialmente para ela por Caetano Veloso, Chico Buarque e Zé Miguel Wisnik. Segundo ela, são compositores que não se pode dispensar.

A crítica especializada acreditava que a carreira da cantora havia perdido o rumo e já lhe cobravam um álbum com novidades. No novo álbum, Gal acertou a mão na escolha dos autores, feita sob aconselhamento de Cesar. Já Cesar imprimiu um refinamento e um engrandecimento aos arranjos de uma forma que lhe é muito característica. O produtor, que vive há anos nos EUA e aperfeiçoa suas habilidades técnicas com os gringos, é um perfeccionista convicto e famoso por seu apuro musical.

Isso contribuiu e muito para dar uma coerência cool a um repertório pontuado pelas melodias africanas do congolês Lokua Kanza (que ainda faz participação especial na faixa Sexo e Luz), a romântica Voyeur, de Péri, o samba-canção Pra Que Cantar, do artista plástico Nuno Ramos, a melancólica Luto, de Caetano.

Cesar Camargo não vai poder acompanhar Gal no piano na nova turnê da cantora pelo País. De acordo com ela, é bem provável que os ensaios sejam marcados para o final de setembro e o novo formato de show sairia na seqüência. Gal já planeja ser acompanhada por um quinteto de músicos e um "computadorzinho", que se encarregará de reproduzir recursos pré-gravados. Para o repertório, canções do novo disco, músicas que já gravou e talvez até algumas que nunca tenha cantado. E mais uma música de autor desconhecido que ficou de fora do novo CD, mas vai estar no DVD do show.

No mais, ela comenta a situação política do País, reiterando a frase de Caetano e Chico: estou de coração partido."

2005 - Hoje

Gal Costa "amadrinha" nova MPB em disco Hoje

Renato Beolchi - Terra - 02/09/2005

Maria da Graça não tem medo da própria idade. Sessenta anos, sim senhor, que serão completados no próximo dia 26. Mas as seis décadas de vida - e quarenta anos de carreira - não atrapalham a jovialidade musical de Maria da Graça, mais conhecida como Gal Costa. E o elixir da juventude chama-se Hoje, novo álbum de Gal, um registro no qual ela assume o posto de madrinha da nova safra da MPB. No disco, apenas músicas de compositores sem grande expressão. Até agora, pelo menos.

Em entrevista exclusiva ao Portal Terra, a cantora baiana falou sobre o trabalho com o amigo e produtor César Camargo Mariano, o processo de seleção do repértório de Hoje, projetos futuros, sua suposta rivalidade com Elis Regina e principalmente sobre seu amor pela música. Uma paixão que celebra neste 2005, quatro décadas, desde o lançamento de seu primeiro compacto.

Lançado pela Trama, o álbum reúne apenas composições de artistas pouco expressivos no cenários nacional. A escolha foi feita por Gal ao lado de Mariano, que assina a produção e os arranjos do álbum. "A gravadora me mandou algumas músicas, mas elas não faziam parte do meu universo musical. Então eu pedi ao (compositor) Carlos Rennó, que me indicasse compositores que estão 'ralando' há algum tempo mas que ainda não fossem muito famosos".

Assim, gente como Péri, Moisés Santanna, Junio Barreto e o congolês Lokua Kanza ganham espaço no disco de Gal Costa, um trampolim e tanto para o currículo de um compositor. O resultado agradou a intérprete. "O disco tem insinuações jazzísticas e é muito diversificado musicalmente. É um álbum que se parece comigo", assegura.

César e Chet

Hoje é resultado de uma conversa que aconteceu entre César Camargo Mariano e Gal Costa há quatro anos. Os dois encontraram-sem no Carnegie Hall em Nova York para um show de tributo a Tom Jobim. "César disse que tinha um projeto que queria fazer comigo: um disco apenas com canções do Chet Baker". Anos depois, Gal cobrou Mariano, que mencionou o interesse de João Marcelo Bôscoli em levá-la para sua gravadora, a Trama.

Gal topou o desafio e trocou de gravadora. Reuniu-se com Mariano e conceberam Hoje. Mas o disco com músicas de Chet Baker vem aí, garante a intérprete. "Esse não será um disco difícil de ser realizado. É só escolher o repertório, a tonalidade e gravar. Eu adoro cantar em inglês e sou apaixonada por Chet Baker".

Gal versus Elis

Fazer parte do cast da gravadora de Bôscoli, filho de Elis Regina, não cria nenhum embaraço para Gal. Segundo ela, a suposta rivalidade entre ela e a "Pimentinha" foi uma história criada pela própria imprensa. "Nós nunca fomos grandes amigas de freqüentar uma a casa da outra. Mas nunca houve rivalidade. Existia, sim, uma profunda admiração e respeito".

Quatro décadas de Gal

"Sou como um passarinho: se eu não cantar, morro", define-se Gal Costa. É assim que ela avalia sua vitalidade musical. Há quarenta anos, Gal lançou seu primeiro compacto, ainda como Maria da Graça. Declarando um grande amor por sua obra, ela não encontra muita dificuldade e consegue até eleger seus cinco discos prediletos: Domingo (1967), Fa-Tal (1971), Cantar (1974), Todas as Coisas e Eu (2004) e Hoje (2005).

Os dois últimos têm uma explicação lógica para entrar na lista de Gal. Ela nunca esteve tão à vontade com as comparações com Ella Fitzgerald. Assim como a diva norte-americana fez com a música de seu país, Gal realiza, na música popular brasileira, um profundo estudo. Se em Todas as Coisas... ela resgatou os clássicos, em Hoje ela apresenta o novo. Esse passeio é seu túnel do tempo entre passado e futuro.

2005 - Hoje

Gal faz garimpo musical e lança álbum com inéditas
Luiz Fernando Vianna - Folha de São Paulo - 02/09/2005
     
Depois de sete anos lançando discos com repertórios isentos de novidades, Gal Costa volta ao presente com "Hoje". O título significativo foi retirado de uma canção de Moreno Veloso, que, não fosse filho de Caetano, poderia entrar no largo rol de compositores pouco ou nada conhecidos do CD.

"Achei que "Hoje" se adequava, porque estou fazendo 60 anos [em 26 de setembro] com um disco rejuvenescedor, instigante. Não me lembro, na história da MPB, de alguém que tenha lançado tanta gente nova para o grande público", orgulha-se a cantora.

Gal passou os últimos anos trocando de gravadora (BMG, MZA, Abril, Indie) e sendo cobrada para lançar um disco de inéditas. Agora na Trama e morando em São Paulo -depois de sete anos em Salvador- ela diz ter ficado mais próxima dos novos autores.

"É preciso ter disponibilidade para ir aos lugares, procurar. Os compositores estão escondidos e têm dificuldade de mostrar seu trabalho. Na minha geração era mais fácil, pois havia os festivais e a mídia estava disponível para registrar tudo o que acontecia nas ruas, nas faculdades, nas festas."
Com a ajuda da Trama e do letrista Carlos Rennó, Gal recebeu cerca de 200 músicas inéditas ou gravadas apenas por seus autores. A qualidade que afirma ter encontrado é um mote para ela rechaçar que tenha afirmado, em 2001, que não havia bons compositores novos no Brasil.
"Não sou louca de dizer uma frase dessa. Fui mal interpretada. O que disse é que, quando fiz "Aquele Frevo Axé" [1998], um disco que passou em branco e hoje parte da imprensa reconhece como bom e de certa forma inovador, não encontrei nada que se adequasse ao meu universo musical. Existem bons [compositores] sim", afirma.
Alguns desses, estão em "Hoje": os baianos Moisés Santana, Péri e Tito Bahiense; o pernambucano Junio Barreto; e o paulista Hilton Raw. Há outros "novos compositores" de outras áreas, como os artistas plásticos Nuno Ramos, Eduardo Climachauska e Lenora Barros, e o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, editor de Opinião da Folha.

"Péri, Moisés e Junio, por exemplo, gravaram discos independentes e estão ralando há bastante tempo, mas ninguém dava trela. Tive a oportunidade de ter acesso a esse material e lançá-lo", diz Gal.

Liderando a turma, autora de três das 14 faixas, está a dupla formada pelo paulista Carlos Rennó e o músico Lokua Kanza, nome conhecido na seara world music, nascido no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo.

"No show que vou começar a montar, ainda pretendo incluir um ou dois compositores que eu queria ter gravado, mas ficaram de fora", conta ela.
Representando sua geração, estão, com uma inédita cada, Caetano ("Luto") e Chico Buarque ("Embebedado", com letra de José Miguel Wisnik). Eles aparecem discretos no disco, nas faixas 9 e 13, respectivamente. "A escolha das faixas foi casual", diz Gal.

"Hoje" foi feito de uma forma pouco comum nos tempos atuais: com uma mesma banda tocando em quase todas as faixas e um mesmo arranjador, Cesar Camargo Mariano. "Cesar vive um momento bem "cool", e eu sou uma cantora essencialmente "cool"."

O sonho inicial de Cesar, de fazer com a cantora um disco dedicado ao repertório de Chet Baker, ficou para 2006.

Foi o pianista quem fez a ponte entre a Trama, de seu enteado João Marcello Bôscoli, e Gal. Ela nega que tenha sofrido pressões de gravadoras nos discos anteriores ("Eu estava gravando as coisas que eu queria"), mas se diz feliz em ter seguido o caminho das independentes, como fizeram os também "medalhões" Maria Bethânia e Chico Buarque.

"Eles [da Trama] gostam de fazer o que o artista quer, trabalhar em comunhão. Isso não tem preço. É um clima muito melhor do que o anterior", comenta.

Ela não deixa vazar nenhum temor por estar lançando um CD de compositores novos por um selo menor: "Meu público é fiel".

"Hoje" chega "rejuvenescedor" em um momento "muito ruim" no país. "É desolador o PT ter vindo com um discurso de mudança, e acabar sendo revelado que [o partido] não era só conivente, mas fez tudo em dobro. Espero que esse processo seja um exorcismo, para limpar essa bandalheira. Estou muito entristecida."

Intérprete mostra fôlego e coragem

"Hoje" não é a redenção milagrosa de Gal, como cogitavam fãs descontentes e críticos contentes com o desgoverno recente de sua carreira, e muito menos um desastre. É um bom disco, cujo mérito maior é o renascimento da coragem da cantora.
Gal Costa rejeitou o modelo embalsamador de diva, que ameaçava incorporar, e voltou às novas composições. O resultado de sua colheita é irregular, mas os bons frutos são maioria.
Um deles é a faixa-título, canção de Moreno Veloso que tem sua força na extrema delicadeza de melodia e letra. Na mesma chave está "Nada a Ver" (Hilton Raw, Lenora e Marcos Augusto), em que a melancolia das notas longas se traduz no piano e no baixo acústicos que acompanham Gal.
Cesar Camargo Mariano volta a brilhar no piano e no arranjo de "Pra que Cantar", um belo samba de fossa anti-Carnaval ("Me deixem fora dessa euforia de três dias") de Nuno Ramos. O artista plástico também é um dos autores de "Jurei", eficiente sambão com toques jazzísticos.

Em "Os Dois", a melodia de Moisés Santana é ótima, um samba-canção que vira blues nas regiões graves, mas a letra traz o enjôo das duplas citações: faz jogos de palavras com músicas da bossa nova, como Caetano Veloso fizera em "Saudosismo".

"Santana" (Junio Barreto/João Carlos), de letra intrincada, ficou com boa mistura entre acústico e eletrônico, emulando um pouco de Jorge Ben Jor. Este é referência nítida em "Logus Pé" (Tito Bahiense), um passeio surrealista pelas ruas de Salvador que ganha de Gal interpretação à anos 70.
Em "Voyeur" (Péri), a tibieza da música é disfarçada pela agradável leveza baiana do clima criado por Gal e Cesar. Essa leveza também está na faixa de abertura, "Mar e Sol", mas a letra de Carlos Rennó para a melodia de Lokua Kanza é por demais banal.

Os dois são parceiros na também banal "Te Adorar" e na múltipla "Sexo e Luz", que cativa pelos caminhos inusitados e crescendos, ótimos para Gal. A gravações tem vocais de Kanza, bem superiores aos que o paulista Silvera faz em outras faixas.

A contribuição de Caetano ("Luto") é, também, uma bela canção situada no Carnaval, sofrida declaração de amor à festa. Chico Buarque, ao lado do aqui letrista José Miguel Wisnik, participa com a deliciosamente sinuosa "Embebedado".
Cantando com suavidade e novo fôlego, Gal reencontra o amanhã em "Hoje".

2005 - Hoje

Os novos nomes de Gal

Nelson Gobbi - Jornal do Brasil - 02/09/2005
      

Cantora comemora 60 anos com 'Hoje', disco de inéditas em que revela safra de compositores

SÃO PAULO - A antes inexpugnável muralha dos 60 anos ganhou um sentido mais ameno quando ídolos da música brasileira como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque a transpuseram com invejável vitalidade. Agora chega a vez de Gal Costa, que completa seis décadas de vida no próximo dia 26. Dispensando o excesso de formalidades que poderiam trazer peso extra à data, a cantora baiana prefere comemorar com um disco de músicas inéditas, a maioria composta por nomes desconhecidos do grande público. A intérprete espera que a leveza do CD Hoje, cuja produção e arranjos levam a assinatura de César Camargo Mariano, transmita o seu espírito renovado, o retrato da artista quando jovem.
- Não me sinto com 60 anos. Minha cabeça e meu espírito não têm essa idade. Não sou só eu; é só olhar para o Caetano, o Chico, o César Camargo, todos têm uma vitalidade impressionante. Acho que os artistas têm essa característica atemporal. Jamais me imaginei com 60 anos, e é claro que não é fácil chegar lá. Mas lançar este disco agora é um presente maravilhoso, porque reflete um grande frescor, tanto meu como do César - afirma Gal.

O álbum reuniu novamente a cantora baiana e o pianista, produtor e arranjador, que haviam trabalhado juntos no disco Baby Gal (1983). César também ressalta a vitalidade da cantora.

- A Gal parece uma menina de 19 anos, é uma folha verde que impregnou todo o álbum com sua jovialidade. Eu me preocupei em não descaracterizá-la, e tive em mente que ela é uma das raras cantoras brasileiras que podem correr certos riscos. Por isso quis trazer para o disco uma enxurrada de compositores novos. Assim como Elis fazia no passado, a Gal é perfeita para revelar talentos ainda desconhecidos - atesta o músico, ex-marido de Elis Regina e pai dos cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

O CD Hoje é fruto de outro projeto de César e Gal. Após um encontro em Nova York, os dois decidiram produzir um disco dedicado a Chet Backer, trompetista americano que influenciou diretamente a bossa nova e, por conseguinte, toda a geração posterior de artistas brasileiros. César levou o projeto a João Marcelo Bôscoli, presidente da gravadora Trama, que decidiu produzir o disco-tributo e, de quebra, um álbum de inéditas da cantora.

- A idéia inicial era fazer os dois discos juntos, mas percebemos que seria muito desgastante produzi-los simultaneamente. Então optamos por fazer o CD do Chet Baker daqui a algum tempo, depois de lançar e fazer os shows do Hoje. Acho que deverá ser relativamente mais fácil gravar o próximo CD, porque eu e o César conhecemos bem a obra do Chet. Será mais o tempo de definir o repertório e entrar no estúdio para gravar - prevê Gal Costa.

Depois de assinar o contrato para os dois discos com a nova gravadora, a cantora começou a selecionar o repertório, repleto de jovens compositores como o pernambucano Junio Barreto, os paulistas Hilton Raw e Nuno Ramos, os baianos Moisés Santana, Péri e Tito Bahiense e o congolês Lokua Kanza, entre outros. Para encontrar os novos autores, a cantora contou com a ajuda do letrista e produtor Carlos Rennó e do pianista Otávio de Moraes.

- Sempre lancei gente nova e há muito tempo queria fazer um disco de inéditas. Após um dos meus shows, o Rennó me mostrou três músicas dele com o Lokua, que acabaram entrando no CD. Então eu lhe pedi que me ajudasse a garimpar novos nomes para o álbum. Ele e o Otávio selecionaram alguns trabalhos, que eu e César avaliamos em função do equilíbrio geral do disco. É gratificante poder mostrar a obra de gente talentosa que ainda não tem espaço junto ao grande público - afirma Gal.

'A internet é o caminho'

Gal Costa aproveita o fato de estar lançando novos autores para desfazer um antigo mal-entendido:
- Há poucos anos, uma afirmação minha teve interpretação equivocada por parte da mídia. Jamais disse que não havia mais bons compositores novos, seria burrice afirmar isso. Acho apenas que, na época em que a nossa geração surgiu, era mais fácil mostrar um trabalho, os meios de comunicação iam atrás dos artistas jovens, havia os festivais. Por isso este CD é ousado. Não me lembro, na história recente da MPB, de alguém gravando tantos compositores desconhecidos.

A cantora também foi uma das primeiras estrelas da MPB a deixar uma major e apostar no mercado independente, em 2002. Hoje, Gal não vê tanta diferença entre pertencer a uma multinacional ou a um selo pequeno.

- Acho apenas que as grandes gravadoras estão perdidas, sem saber que caminho percorrer. Os selos menores estão interessados em investir no novo, com um tesão de trabalhar que as grandes tinham no passado. A tendência do mercado fonográfico é a internet. Os fãs vão continuar comprando o disco, mesmo que não gostem de todas as faixas. Mas uma pessoa que goste de duas músicas minhas pode comprá-las pela rede e montar um disco com outras faixas da Marina Lima, do Caetano ou do Gil, por exemplo. O avanço da tecnologia vai apontar esse caminho - avalia a intérprete.

Como de costume, Gal escolheu uma das faixas para dar título ao álbum. A opção por Hoje, composta por Moreno Veloso, se deu pela sintonia que a cantora pretendia mostrar no novo trabalho:

- Eu e o César tivemos a mesma idéia. A música do Moreno era a mais adequada para batizar o disco por ter um espírito atual, contemporâneo, que retratou tão bem nosso reencontro.

Além de compositores em ascensão como Moreno, o disco também contou com a participação de dois ícones da música brasileira: Caetano Veloso, pai de Moreno, e Chico Buarque.

- Não poderia deixar de gravar esses presentes que Caetano e Chico me deram, até porque as músicas estão completamente integradas à proposta do álbum. Eu pedi uma música ao Caetano três meses antes de começar a gravar o CD. Ele me mandou Luto por e-mail e depois veio até São Paulo, para acompanhar a gravação dela no estúdio. Já Embebedado foi diferente; era uma melodia que o Chico tinha pronta para uma trilha sonora de um filme que acabou não sendo produzido. Então ele entregou para o José Miguel Wisnik colocar a letra. Eu queria cantá-la no meu show anterior, mas acabou não ficando pronta a tempo. Felizmente ele conseguiu terminá-la para que pudesse entrar no disco e o resultado foi surpreendente, parece até que os dois a fizeram juntos.

2005 - Hoje

Gal atual
Tárik de Souza - Jornal do Brasil - 12/08/2005
      
Raro caso de cantora que revela (e não releva) a idade, Gal Costa crava sessentinha em setembro a bordo de um disco rejuvenescedor. Hoje, produzido por Cesar Camargo Mariano, abre janelas para novos autores, como Moisés Santana, Péri, Junio Barreto, Tito Bahiense, Moreno Veloso & Quito Ribeiro, Nuno Ramos & Clima e o trio Hilton Raw, Lenora de Barros e Marcos Augusto. “Pra mim é uma honra poder mostrar o trabalho dessa rapaziada, que muitas vezes tem dificuldades de divulgar sua produção na mídia. Era uma inquietação minha”, garante. Ao lado dos mais novos nativos, ela inclui o africano Lokua Kanza, contemplado com três faixas, uma delas, Sexo e luz, em dueto com a diva. As três são inéditas, parcerias com o letrista Carlos Rennó, co-autor também de Te a d o ra r e Mar e sol. A última e a primeira foram feitas praticamente por encomenda de Gal. Rennó aproveitou a vinda de Kanza para um show em Brasília e o levou a participar do disco. Quem também esteve no estúdio, mas apenas para ver a gravação da faixa que compôs especialmente para Gal – Luto –, foi Caetano Veloso. “Como toda música dele, esta me emociona. Quando fui gravar, chorava eu, chorava Cesar, chorava o técnico de som”, debulha-se. Outra atração do disco, que marca a estréia da cantora na Trama de João Marcelo Bôscoli, filho da ex-rival Elis Regina, é Embe bedado, inesperada parceria em que Chico Buarque fez a música (encomenda para o show de Gal Todas as coisas e eu) e Zé Miguel Wisnik escreveu a letra.

2005 - Hoje

Voz renovada
O Dia - 24/06/2005

Gal Costa finaliza CD com autores desconhecidos e produção de César Mariano


Gal Costa finalizou o disco com que vai festejar seus 60 anos, em setembro. Produzido por César Camargo Mariano, o CD marca a estréia da artista na gravadora independente Trama e promete ser guinada na carreira de Gal por reunir basicamente músicas de autores desconhecidos. O time inclui Junio Barreto, Moisés Santana, Tito Bahiense, Nuno Ramos, Moreno Veloso e o trio formado por Hilton Haw, Lenora de Barros e Marcos Augusto. Chico Buarque (com melodia inédita letrada por José Miguel Wisnik) e Caetano Veloso (com a inédita Luto) são os representantes dos medalhões. Carlos Rennó letrou três músicas de Lokua Kanza para o CD, já em fase de masterização.

Artista diz estar gratificada por trazer garotada à tona

Para mim, é uma honra poder mostrar o trabalho dessa rapaziada que, muitas vezes, tem dificuldade de mostrar sua produção na mídia. Era uma inquietação minha e é gratificante trazer essa garotada à tona, afirma Gal, em nota da gravadora Trama.
Boa parte da garotada já está na casa dos 40 anos, mas é fato que, depois de quatro discos centrados em regravações de sucessos, a cantora volta a ousar como nos CDs O Sorriso do Gato de Alice (1993) e Aquele Frevo Axé (1998). Produtor de alguns dos melhores discos de Elis Regina, César Camargo Mariano toca em faixas como Santana, tema do compositor de Caruaru (PE) Junio Barreto.
Mariano cercou Gal de músicos e artistas do elenco da Trama (o cantor Silvera, por exemplo, faz coro no CD). A idéia é lançar um disco à altura do arrojado passado da cantora.


Caetano assina a inédita 'Luto'

LUTO
Gal queria regravar Dama do Cassino, de Caetano Veloso, mas desistiu ao ganhar a inédita Luto do compositor baiano.

SANTANA
Música do pernambucano Junio Barreto já gravada pelo autor, de 41 anos, em 2002.

SEXO E LUZ
Sexo e Luz é uma das três músicas do africano Lokua Kanza letradas por Carlos Rennó. As outras são Te Adorar e Mar e Sol.

JUREI
Parceria de Eduardo Climachauska (Clima) com o autor e artista plástico paulista Nuno Ramos.

PRA QUE CANTAR
Esta música é somente de Nuno Ramos. Assim como Jurei, ela foi gravada pelo cantor Romulo Fróes no disco Calado.

OS DOIS
Música de Moisés Santana, baiano de 42 anos. Foi lançada no primeiro CD do autor.

2005 - Hoje

Gal Costa participa do Heineken Jazzfest de Porto Rico
24 Horas News - 03/06/2005

A cantora brasileira Gal Costa se apresenta no próximo sábado, em San Juan (Por Rico), na 15ª edição do Heineken Jazzfest de Porto Rico, evento no qual será homenageada.

Gal contou que seu próximo trabalho, ainda sem título, mas com lançamento previsto para agosto, apresentará compositores e autores desconhecidos da indústria fonográfica, sob o selo Trama.
    
Ela disse estar "muito satisfeita de cantar suas canções". "Muitos deles têm 42, 43 anos, e estão lá buscando um lugar e uma oportunidade para poder mostrar seus trabalhos", afirmou Gal.
    
O festival começa quinta-feira à noite, no Anfiteatro Tito Puente, de San Juan, e vai até domingo, com shows do guitarrista Al Di Meola, do baterista Roy Haynes e seu Quarteto, a Orquestra de Count Basie, com a cantora Patti Austin, o flautista Néstor Torres e o trompetista Jon Faddis, entre outras atrações.
Gal Costa diz nunca ter reclamado da safra de novos compositores da MPB 
Leonardo Lichote - Globo Online - 02/06/2005
      

RIO - Gal Costa afirma ao Globo Online que a suposta declaração de que não havia bons compositores novos na MPB surgiu num jornal na ocasião do lançamento do disco "De tantos amores", em 2001. A cantora diz que, na época, a imprensa teria criado esse boato - Gal alega que havia uma má-vontade com ela por sua declaração de apoio moral ao senador Antônio Carlos Magalhães, que estava enfrentando um processo de cassação de seu mandato de senador.

O lançamento de "De tantos amores" chegou a ser adiado devido à repercussão das palavras de Gal sobre ACM. Em entrevista aO Globo na época, Gal falou sobre o assunto: "Fui muito patrulhada. O disco foi adiado mesmo. Acho que fui mal entendida. Eu não fui dar apoio à atitude política do Antonio Carlos, mas sim dar apoio moral a um homem que fez muito pela cultura da Bahia e precisava daquela atitude. Isso tem que ficar claro. Eu me senti magoada e, de certa maneira, maltratada. Esqueceram a minha história, todo o meu passado, tudo o que eu represento, tudo o que eu fiz. A MPB neste país é maltratada pela imprensa. As pessoas põem para baixo, maltratam os grandes artistas. Isso é ruim".

2005 - Hoje

Novo CD de Gal Costa promete retomar antiga ousadia da cantora

Leonardo Lichote - Globo Online - 02/06/2005
     
RIO - Gal Costa está com CD novo no forno, pela Trama, com repertório focado basicamente em compositores novos. Banal, não é? Uma cantora prepara um CD e para isso, procura canções de sangue jovem.

Não, não é banal. E, se dessa forma a notícia parece não ter o impacto certo, vamos recapitular.

Nos 60, na linha de frente do tropicalismo, Gal personificava em sua voz o que era ser doce e bárbara ao mesmo tempo. Nos 70, com trabalhos como "Fa-tal" virou uma espécie de musa da contracultura infiltrada na cultura oficial. Até que nos anos 80 enveredou por um pop radiofônico pouco ambicioso. E mais, para fechar: em 2001, ela se tornou símbolo do reacionarismo dos medalhões da MPB e da indústria devido a uma suposta declaração sua de que não havia mais bons compositores jovens na música brasileira, justificando assim o repertório de releituras de seus discos. (Clique aqui e saiba o que Gal fala desse episódio)

É essa Gal que agora prepara na Trama - uma gravadora identificada com músicos "conceitualmente" jovens - um disco que lança luz sobre artistas pouco conhecidos, com produção de Cesar Camargo Mariano. O CD ainda não está definido, mas numa seleção inicial há nomes como Junio Barreto, Nuno Ramos e Lucas Santtana.

O novo disco promete ser o mais ousado de Gal em muitos anos - ao menos no repertório. Vejamos seus últimos lançamentos: "Gal Costa canta Tom Jobim", sobre a obra do maestro; "Gal de tantos amores", no qual regravou seus antigos sucessos; "Gal bossa tropical", coalhado de clássicos de artistas como Rita Lee, Caetano/Gil, Lennon/McCartney, Erasmo e Vinicius; e "Todas as coisas e eu", com ênfase em canções brasileiras feitas entre os anos 20 a 50.

Para o disco que está preparando, a cantora também tem à disposição novidades de seus antigos colaboradores. Caetano Veloso compôs uma música especialmente para ela. Chico Buarque e Zé Miguel Wisnik entregaram uma parceria que ela cantaria ainda na temporada de seu show anterior, "Todas as coisas e eu", mas que a dupla não conseguiu terminar a tempo. Chico fez a melodia, Wisnik fez a letra. Carlos Rennó, que ela também já havia gravado, entra no projeto com sua parceria com o africano Lokua Kanza. O músico, nascido no Congo, une a tradição africana ao pop e já trabalhou com Peter Gabriel, Youssou N´Dour, Chico César e Djavan.

Apesar de ainda não terem se afirmado perante o grande público, os compositores que Gal está prestes a "lançar" têm uma estrada. Nascido em Caruaru, Junio Barreto começou na carreira musical há 20 anos em Recife, com a banda Uzzo. Esteve próximo do movimento mangue bit no início dos anos 90, mas sem se envolver diretamente com ele. Em 2002 lançou um excelente disco, chamado simplesmente "Junio Barreto", no qual usou com originalidade o suingue de Jorge Ben em sambas doces e algo melancólicos. A faixa 6 do CD, "Santana", foi pinçada por Gal, que gravou-a com Cesar Camargo Mariano. O compositor também está na mira de Maria Rita, que selecionou uma música dele para seu segundo disco, com produção de Lenine.

O paulistano Nuno Ramos é mais conhecido por seu trabalho como artista plástico. Duas de suas músicas chamaram a atenção de Gal: "Jurei", parceria com Clima, e "Pra que cantar". Ambas foram gravadas pelo jovem artista Rômulo Fróes, outro que faz uma abordagem original do samba em sua obra. Lucas Santtana, que começou sua carreira solo em 2000 no CD "Eletro Ben Dodô", foi gravado por cantoras como Marisa Monte e Daniela Mercury. Em seu segundo disco, o ótimo "Parada de Lucas", ele lança seu olhar sobre o encontro da tecnologia com a pobreza, que gerou, entre outros, o funk carioca e o dub.

Funk, samba contemporâneo, afropop... Gal, que nunca deixou de ser doce, parece estar suficientemente munida de armas para voltar a exercer seu lado bárbaro.

2005 - Hoje

02/06/2005 - Gal Costa participa de festival em Porto Rico
Fonte: Terra

A cantora brasileira Gal Costa se apresenta no próximo sábado, em San Juan, na 15ª edição do Heineken Jazzfest de Porto Rico, evento no qual será homenageada.

Gal revelou, em entrevista à AFP, que seu próximo trabalho, ainda sem título, mas com lançamento previsto para agosto, apresentará compositores e autores desconhecidos da indústria fonográfica, sob o selo Trama. Ela disse estar "muito satisfeita de cantar suas canções".

"Muitos deles têm 42, 43 anos, e estão lá buscando um lugar e uma oportunidade para poder mostrar seus trabalhos", comentou.

O festival começa quinta-feira à noite, no Anfiteatro Tito Puente, de San Juan, e vai até domingo, com shows do guitarrista Al Di Meola, do baterista Roy Haynes e seu Quarteto, a Orquestra de Count Basie, com a cantora Patti Austin, o flautista Néstor Torres e o trompetista Jon Faddis, entre outras atrações.

2005 - Hoje



Por Doug Carvalho, Tiago Marques e Fábio Coutinho

"Hoje" nasceu de um encontro de Gal Costa e César Camargo Mariano em Nova York, anos antes do disco ser gravado. Gal e Cásar se encontraram num show em homenagem à Tom Jobim no Carnegie Hall, onde apresentaram uma música do repertório de Chet Baker. Depois, nos bastidores, César comentou com Gal que gostaria de fazer com ela um disco calcado no repertório de Chet. Gal conta que topou na hora. Passaram alguns anos, e em 2004 em um novo encontro de Gal e César, ele comentou que João Marcelo Bôscoli, filho de Ronaldo Bôscoli e Elis Regina, ex-mulher de César, queria levar a cantora para a gravadora Trama, na qual ele é um dos sócios. Nas conversações do contrato de Gal Costa com a gravadora, ficou acertada a feitura de dois discos, um com o repertório de Chet Baker e outro com músicas de compositores novos, projeto proposto por Gal à Indie Records, mas a gravadora queria que Gal fizesse outro CD de clássicos, calcados no sucesso do CD anterior, "Todas as Coisas e Eu", lançado pela Indie. A idéia inicial de Gal e César era fazer os dois discos simultaneamente, mas devido a dificuldade da realização de um disco de repertório inédito, decidiu-se adiar o CD com músicas de Chat Baker. Gal Costa convocou então o letrista paulista Carlos Rennó para auxilia-la na seleção do repertório. Numa primeira instância foram enviadas canções pela própria Trama, mas a cantora não se sentiu atraída por essas canções, alegando não fazerem parte de seu universo musical.
Carlos Rennó trouxe para Gal canções de compositores como Moreno Veloso (já gravado por Gal no CD "Aquele Frevo Axé", de 1998), Péri, Nuno Ramos, Júnio Barreto, Tito Bahiense, Moisés Santana e Hilton Raw, além de três melodias do compositor congolês Lokua Kanza, letradas por Rennó ("Mar e sol", "Te adorar" e "Sexo e luz"). Ao lado desses compositores pouco conhecidos pelo grande público, Gal gravou duas inéditas de Caetano Veloso ("Luto") e Chico Buarque e José Miguel Wisnik ("Embebedado"). Gal durante as gravações de "Luto" chegou a se emocionar muito, tendo parado as gravações para conter o choro que vinha sempre que começava a música. "Embebedado" por sua vez já estava prometida por Chico à Gal desde 2004, quando fez o show "Todas as Coisas e Eu". Era uma melodia destinada a um filme italiano que acabou não sendo feito, que foi entregue por Chico para Gal, porém Wisnik não preparou a letra a tempo e a música não chegou a ser cantada no show. Das músicas do repertório, "Santana", do pernambucano Júnio Barreto chegou a ser disputada por outra cantora, a paulista Maria Rita, filha de César Camargo Mariano e Elis Regina, mas ao ser contatado por Lenine, produtor do CD de Maria Rita, Júnio Barreto já havia prometido a canção para a gravação de Gal Costa, tendo sido limada do segundo CD de Maria Rita, intitulado "Segundo", lançado na mesma época que "Hoje", apesar dela ter cantado depois a música em shows.